Sem voz e sem rosto, assim é o Espírito

O Espírito Santo não fala, porque sua missão é revelar a Palavra e, sem ele, a Palavra é apenas ruído religioso, profecia sem profetismo, sentimento sem fé, cerimônia sem liturgia. No grande silêncio também não nos foi revelado o rosto do Espírito, ao contrário do rosto de Jesus e do Pai ("Filipe, quem me vê, vê o Pai" - Jo 14,9). Mas, é possível contemplar o rosto do Espírito Santo: olhando o rosto dos santos, das pessoas cheias do amor, que revelam o Espírito. Os santos têm o privilégio de revelar a imagem e a semelhança de Deus, donde a luz que irradia de seus rostos. O silêncio do Espírito, de sua voz e face nos é manifestado na sinfonia da comunhão dos santos: afirmou um monge que "se não existissem os santos, se nós não acreditássemos na comunhão dos santos do céu e da terra, estaríamos encerrados numa solidão desesperada e desesperante", pois viveríamos num silêncio não comunicativo, revelador de gélida vida solitária.

O Espírito nos abre os ouvidos e o coração para ouvirmos a Palavra e essa não pode ser ouvida sem a renovação de nosso ser através dele. Tira de nós a presunção do conhecimento teórico, abstrato sobre Deus, pois não há relação intelectual com Deus em Cristo, mas sim, renovação do coração e da mente que nos fazem compreender a Palavra que, acolhida, nos mergulha na verdade e na vida.

É pobre o comunicador - a palavra de ordem hoje é comunicar! - que busca explicar tudo. Nossas TVs, rádios, internet estão cheios de explicações religiosas, algumas até contraditórias. Na busca legítima de evangelizar, levar a doutrina a todos os ambientes, corre-se o risco de profanar o Sagrado, espetacularizar o mistério. A comunicação religiosa é contemplação, adoração, revelação. Aqui entra o "pudor", o recato: as coisas de Deus são misteriosas, profundas, não podem ser lançadas na vala comum do barulho mundano. São mais contempladas do que demonstradas.

Em seus primeiros séculos, a Igreja adotava o catecumenato para os adultos, que participavam da Eucaristia apenas até o final da Liturgia da Palavra. Ainda hoje a Liturgia ortodoxa, nesse momento, ordena: "Catecúmenos, ide embora!". Após o Batismo (que incluía a Comunhão e a Crisma) era-lhes explicado o que tinha acontecido num sermão "mistagógico", de introdução ao mistério. Havia segredos que somente nesse momento eram revelados. Hoje nos preocupamos em mostrar tudo, explicar tudo, e destruímos a possibilidade do espanto diante do Mistério, perdemos o pudor do silêncio. E perdemos tudo, pois não ouviremos os anjos cantando e não iremos a Belém.